Abaixo, segue uma reportagem retirada do site do jornal EXTRA .
Moradores discutem aspectos positivos e negativos da UPP em áreas pacificadas
Maria Vieira dos Santos com o marido Cícero Bezerra dos Santos, a filha
Fernanda dos Santos Baroni e os netos Jordan, Leticia (de boné) e
Giovana, no Batan, num cenário que já foi dominado pelo tráfico
Foto: Marcelo Theobald / Extra
Grávida de sete meses, a auxiliar de escritório Juliana Castro, de 26
anos, ficou dois dias refugiada dentro da própria casa com medo de
levar tiro em meio à ocupação policial no Complexo do Alemão, em
novembro de 2010. Quinze anos antes, o açougueiro Cícero Carlos dos
Santos presenciou uma cena que nunca mais esqueceu: cruzou com um homem
ensanguentado, carregado por homens armados na Favela do Batan, em
Realengo, a caminho de um terreno baldio, usado como cemitério
clandestino.
Cenas como essas, agora, só fazem parte das
recordações de moradores de áreas pacificadas. Mas a chegada da UPP não
trouxe apenas tranquilidade para pessoas que passaram a conviver com
homens fardados em missão de paz. O EXTRA conversou com vizinhos da UPP
da Zona Norte a Zona Sul do Rio, passando por áreas que já foram de
domínio do tráfico, como Rocinha, Santa Marta, Batan, Borel, Vila
Cruzeiro e Complexo do Alemão. Com problemas e soluções distintas em
cada caso.
- Existem problemas de relacionamento entre moradores e
policiais. Mas todos precisam entender que é preciso se adaptar. Se não
tivesse UPP, ainda haveria tráfico armado - disse o aposentado Otávio
Luiz dos Santos Filho, de 68 anos.
Em meio a problemas distintos, algo em comum: o debate sobre a pacificação. Maria dos Santos, dona de casa, 63 anos, moradora do Batan
“Moro
aqui há 44 anos. Vim do Ceará, de ônibus, e quando cheguei aqui, só
tinha mato. A Avenida Brasil estava em obras e só tinha um mercadinho.
Depois, comecei a ver gente com arma e escutar tiros. Eu tinha medo de
sair de casa. Na frente, só tinha bandido armado e tiroteio. O meu neto
viu e disse: ‘Vó, tem um monte de arma’. Eu disse, baixinho: ‘É
bandido’. Agora, os meus netos brincam na frente de casa”.
João Claudino, comerciante, 58 anos, morador do Santa Marta
“Teve
uma vez que a polícia estava aqui e os bandidos chegaram a dormir
dentro da minha casa. Hoje em dia, não existe mais isso. Aqui, foi a
primeira comunidade a ser pacificada. Passou a ser vista pela mídia como
a favela modelo e ponto turístico. Mas tem muita maquiagem. Ainda tem
esgoto descoberto, barracos de tábua e pessoas em áreas de risco”.
O padeiro Luiz Claudio da Silva dos Santos mora no Morro Santa Marta, em Botafogo, Zona Sul do Rio Foto: Luiz Roberto Lima / Extra Luiz Cláudio dos Santos, dono de padaria, 25 anos, morador do Santa Marta
“Quando
veio a UPP, comprei a padaria do antigo dono, que passou o ponto pelos
gastos. O aluguel aumentou, passou a ter conta de luz. Preciso vender
mais caro, para me manter. Aqui, era a única padaria. Agora, tem outras
duas. O lado bom é que temos paz. Mas também tem um lado ruim. A
diversão não é a mesma. Antes, sempre tinha baile. E era de graça.
Agora, só tem uma vez por mês para o pessoal do morro. E tem que pagar. A
UPP tem um preço”.
O motofretista Wellington Carvalho mora na Rocinha Foto: Luiz Roberto Lima / Extra Wellington Carvalho, motofretista, 31 anos, morador da Rocinha
“Isso
aqui é um paraíso, irmão. Tem tudo que preciso para sobreviver. E tem
praia perto. Mas algumas coisas mudaram. Antes da chegada da UPP, eu
andava de moto de chinelo e sem capacete. Até acostumar a andar usando
capacete, foi complicado. Hoje, está mais tranquilo e tem educação no
trânsito. Mas tem um lado ruim. Uma vez, saí de casa e um policial me
confundiu com bandido, só porque tenho tatuagem”.
Leonardo Leopoldino, guia turístico, mora na Rocinha Foto: LUIZ ROBERTO LIMAA / Agência O Globo Leonardo Leopoldino, guia turístico, 32 anos, morador da Rocinha
“Antigamente,
a Rocinha era uma mina de ouro para o tráfico. Ainda existe venda de
drogas, mas não na porta de casa de morador. As pessoas têm benefícios.
Obras, moradia mais confortável. Mas tem crimes que não aconteciam
porque o tráfico não deixava, como roubo, furto e estupro”.
O estudante Marcelo Mandarino, de 18 anos, mora na Vila Cruzeiro Foto: Luiz Roberto Lima / Extra Marcelo Mandarino, estudante, 18 anos, morador da Vila Cruzeiro
Tivemos
melhoras, com postes de luz, água. O morro está mais calmo. Mas ainda
existem casos de falta de respeito dos policiais, que confundem o
morador com bandido e agem com truculência. Passar por uma rua onde
existe tráfico já é atitude suspeita para eles. Antes, andava sem
preocupações. Agora, preciso andar com documento para não ser confundido
com bandido. Se sair sem documento, os policiais vão achar que estou
devendo algo para a Justiça.
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